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O Novo Testamento

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Descrição: Um olhar no que os eruditos judaico-cristãos dizem sobre a autenticidade e preservação do Novo Testamento.

  • Por Laurence B. Brown, MD
  • Publicado em 18 Jan 2010
  • Última modificação em 01 Jan 2017
  • Impresso: 268
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Ambos lêem  a Bíblia dia e noite,

Mas tu lestes preto onde eu li branco.

                             —William Blake, The Everlasting

Evangelho

O sentimento de Blake na citação acima não é novo.  O Novo Testamento contém inconsistências suficientes para ter produzido uma variedade estonteante de interpretações, crenças e religiões, todas alegadamente com base na Bíblia.  E assim, encontramos um autor oferecendo a divertida observação:

Você pode e não pode,

Você deve e não deve,

Você fará e não fará,

E será condenado se fizer,

E será condenado se não fizer. [1]

Por que tanta variação nos pontos de vistas?  Para começar, grupos teológicos diferentes discordam sobre quais livros devem ser incluídos na Bíblia.  O apócrifo de um grupo é a escritura de outro.  Segundo, mesmo entre aqueles livros que foram canonizados, os muitos textos fonte variantes carecem de uniformidade.  Essa falta de uniformidade é tão onipresente que The Interpreter’s Dictionary of the Bible (O Dicionário Bíblico do Intérprete) afirma: “É seguro dizer que não existe uma frase no Novo Testamento no qual a tradição manuscrita seja toda uniforme.” [2]

Nem uma frase?  Não podemos confiar em uma única frase da Bíblia?  Difícil de acreditar.

Talvez

O fato é que existem mais de 5.700 manuscritos gregos de todo ou parte do Novo Testamento.[3]  Além disso, “nem dois desses manuscritos são exatamente iguais em todos os seus detalhes...  E algumas dessas diferenças são significativas.”[4]  Elemento em aproximadamente dez mil manuscritos da Vulgata, acrescente muitas outras variantes antigas (ou seja, siríaco, cóptico, armênio, georgiano, etíope, núbio, gótico, eslavo) e o que temos?

Muitos manuscritos

Muitos manuscritos que não corresponderam em lugares e não raramente contradizem um ao outro.  Os eruditos estimam o número de variantes de manuscritos em centenas de milhares e alguns estimam em até 400.000.[5]  Nas agora famosas palavras de Bart D. Ehrman, “É possível que seja mais fácil colocar a questão em termos comparativos: existem mais diferenças em nossos manuscritos do que palavras no Novo Testamento.”[6]

Como isso aconteceu?

Manutenção inadequada de registro.  Desonestidade.  Incompetência.   Preconceito doutrinário.  Você escolhe.

Nenhum dos manuscritos originais do período cristão primitivo sobreviveu. [7]/[8] Os manuscritos antigos mais completos (Vaticano MS. No. 1209 e o Códice Sinático Siríaco) datam do quarto século, trezentos anos depois do ministério de Jesus.  Mas e os originais?  Perdidos.   E as cópias dos originais?  Também perdidas.  Nossos manuscritos mais antigos, em outras palavras, são cópias das cópias de cópias de ninguém-sabe-quantas cópias dos originais.

Não é de surpreender que sejam diferentes

Nas melhores mãos, erros de cópia não seriam surpresa.  Entretanto, os manuscritos do Novo Testamento não estavam nas melhores mãos.   Durante o período dos originais cristãos os escribas não eram treinados, não eram confiáveis, eram incompetentes e, em alguns casos, analfabetos.[9]  Aqueles que tinham problemas de visão podem ter cometido erros com letras e palavras semelhantes, enquanto aqueles que tinham problemas de audição podem ter errado ao registrar a escritura enquanto era lida em voz alta.  Frequentemente os escribas estavam sobrecarregados e, portanto, inclinados a erros que acompanham a fadiga.

Nas palavras de Metzger e Ehrman, “Uma vez que a maioria, se não todos, [os escribas] eram amadores na arte da cópia, um número relativamente grande de erros sem dúvida entrou nos textos enquanto os reproduziam.”[10]  Ainda pior, alguns escribas permitiram que o preconceito doutrinário influenciasse sua transmissão da escritura.[11]  Como Ehrman afirma, “Os escribas que copiaram os textos os mudaram.”[12]  Mais especificamente, “O número de alterações deliberadas feitas no interesse da doutrina é difícil de avaliar.”[13]  E ainda mais especificamente, “Na terminologia técnica do criticismo textual – que retenho por suas ironias significativas – esses escribas ‘corromperam’ seus textos por razões teológicas.”[14]

Erros foram introduzidos na forma de adições, deleções, substituições e modificações, mais comumente de palavras ou linhas, mas ocasionalmente de versos inteiros.[15] [16]  De fato, “numerosas mudanças e acréscimos entraram no texto,” [17] com o resultado de que “todas as testemunhas conhecidas do Novo Testamento são em maior ou menor extensão textos misturados, e inclusive vários dos manuscritos mais antigos não estão livres de erros notórios.”[18]

Em Misquoting Jesus (Citando Jesus Erroneamente, em tradução livre) Ehrman apresenta evidência persuasiva de que a história da mulher pega em adultério (João 7:53-8:12) e os últimos doze versos de Marcos não estavam nos evangelhos originais, mas foram acrescentados por escribas posteriores.[19]  Além disso, esses exemplos “representam apenas dois de milhares de lugares nos quais os manuscritos do Novo Testamento foram mudados pelos escribas.”[20]

De fato, livros inteiros da Bíblia foram forjados.[21]  Isso não significa que seu conteúdo seja necessariamente errado, mas certamente não significa que seja correto.  Quais livros foram forjados?  Efésios, Colossenses, Tessalônios 2, Timóteo 1 e 2, Tito, Pedro 1 e 2 e Judite – nove de setenta e sete livros e epístolas do Novo Testamento – são suspeitos de um jeito ou de outro.[22]

Livros forjados?  Na Bíblia?

Por que não estamos surpresos?  Afinal de contas, até os autores do evangelho são desconhecidos.  De fato, são anônimos.[23]  Eruditos bíblicos raramente, se o fazem, atribuem a autoria do evangelho a Mateus, Marcos, Lucas ou João.  Como Ehrman nos diz, “A maioria dos eruditos hoje abandonou essas identificações e reconhece que os livros foram escritos por cristãos desconhecidos mas relativamente bem-educados que falavam (e escreviam) em grego, durante a segunda metade do primeiro século.”[24]  Graham Stanton afirma, “Os evangelhos, ao contrário dos escritos greco-romanos, são anônimos.  Os títulos familiares que dão o nome de um autor (‘O Evangelho de acordo com....’) não são parte dos manuscritos originais, porque foram adicionados somente no início do segundo século.”[25]

Então o quê, se alguma coisa, os discípulos de Jesus têm a ver com a autoria dos evangelhos?   Pouco ou nada, até onde sabemos.  Mas não temos razão para acreditar que foram autores de quaisquer dos livros da Bíblia.  Para começar, deixe-nos lembrar que Marcos era um secretário de Pedro e Lucas um companheiro de Paulo.  Os versos de Lucas 6:14-16 e Mateus 10:2-4 catalogam os doze discípulos e embora essas listas difiram em dois nomes, Marcos e Lucas não faziam parte de nenhuma lista.  Então apenas Mateus e João eram discípulos verdadeiros.  Mas da mesma forma os eruditos modernos os desqualificam como autores.

Por quê?

Boa pergunta.  João sendo o mais famoso dos dois, por que o desqualificaríamos da autoria do Evangelho de “João”?

Humm... porque ele estava morto?

Fontes múltiplas reconhecem que não existe evidência, além dos testemunhos questionáveis de autores do segundo século, para sugerir que o discípulo João foi o autor do Evangelho de "João."[26] [27]  Talvez a refutação mais convincente seja a de que se acredita que o discípulo João tenha morrido em ou por volta de 98 E.C.[28]  Entretanto, o Evangelho de João foi escrito em cerca de 110 E.C.[29]  Então, quem quer que Lucas (companheiro de Paulo), Marcos (secretário de Pedro), e João (o desconhecido, mas certamente não o que estava morto há muito tempo) fossem, não temos razão para acreditar que nenhum dos evangelhos sejam de autoria dos discípulos de Jesus. . . .

 

Copyright © 2007 Laurence B. Brown; usado com permissão.

O excerto acima foi tirado do próximo livro do Dr. Brown,  MisGod’ed, que deve ser publicado com sua sequência, God’ed.  Ambos os livros podem ser visualizados no site do Dr. Brown, www.Leveltruth.comO Dr. Brown pode ser contatado em BrownL38@yahoo.com

 



Footnotes:

[1] Dow, Lorenzo. Reflections on the Love of God.

[2] Buttrick, George Arthur (Ed.). 1962 (Impressão de 1996). The Interpreter’s Dictionary of the Bible. Volume 4. Nashville: Abingdon Press. pp. 594-595 (Sob Text, NT).

[3] Ehrman, Bart D. Misquoting Jesus.P.88.

[4] Ehrman, Bart D. Lost Christianities.P.78.

[5] Ehrman, Bart D. Misquoting Jesus. P.89.

[6] Ehrman, Bart D. The New Testament: A Historical Introduction to the Early Christian Writings. P.12.

[7] Ehrman, Bart D. Lost Christianities.P.49.

[8] Metzger, Bruce M. A Textual Commentary on the Greek New Testament. Introdução p. 1.

[9] Ehrman, Bart D. Lost Christianities e Misquoting Jesus.

[10] Metzger, Bruce M. e Ehrman, Bart D. The Text of the New Testament: Its Transmission, Corruption, and Restoration. P. 275.

[11] Ehrman, Bart D. Lost Christianities.Pp. 49, 217, 219-220.

[12] Ehrman, Bart D. Lost Christianities.P. 219.

[13] Metzger, Bruce M. e Ehrman, Bart D. The Text of the New Testament: Its Transmission, Corruption, and Restoration. P. 265.Ver também Ehrman, Orthodox Corruption of Scripture.

[14] Ehrman, Bart D. 1993. The Orthodox Corruption of Scripture. Oxford University Press. P. xii.

[15] Ehrman, Bart D. Lost Christianities.P.220.

[16] Metzger, Bruce M. A Textual Commentary on the Greek New Testament. Introdução, p.3

[17] Metzger, Bruce M. A Textual Commentary on the Greek New Testament. Introdução, p.10.

[18] Metzger, Bruce M. e Ehrman, Bart D. The Text of the New Testament: Its Transmission, Corruption, and Restoration. P. 343.

[19] Ehrman, Bart D. Misquoting Jesus.Pp. 62-69.

[20] Ehrman, Bart D. Misquoting Jesus.P. 68.

[21] Ehrman, Bart D. Lost Christianities. Pp. 9-11, 30, 235-6.

[22] Ehrman, Bart D. Lost Christianities. P. 235.

[23] Ehrman, Bart D. Lost Christianities. P. 3, 235. Ver também Ehrman, Bart D. The New Testament: A Historical Introduction to the Early Christian Writings. P. 49.

[24] Ehrman, Bart D. Lost Christianities. P. 235.

[25] Stanton, Graham N. p. 19.

[26] Kee, Howard Clark (Notas e Referências). 1993. The Cambridge Annotated Study Bible, New Revised Standard Version. Cambridge University Press. Introduction to gospel of ‘John.’

[27] Butler, Trent C. (Editor Geral). Holman Bible Dictionary. Nashville: Holman Bible Publishers. Sob o título ‘John, the Gospel of’

[28] Easton, M. G., M.A., D.D. Easton’s Bible Dictionary. Nashville: Thomas Nelson Publishers. Sob o título ‘John the Apostle.’

[29] Goodspeed, Edgar J. 1946. How to Read the Bible. The John C. Winston Company. p. 227.

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