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Jerald F. Dirks, Ministro da Igreja Unida Metodista, EUA (parte 1 de 4)

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Descrição: A vida pregressa e educação de um bolsista Hollis de Harvard e autor do livro “A Cruz e o Crescente”, desiludido pelo Cristianismo devido à informação aprendida em sua Escola de Teologia.  Parte 1.

  • Por Jerald F. Dirks
  • Publicado em 27 Sep 2010
  • Última modificação em 27 Sep 2010
  • Impresso: 438
  • Visualizado: 8763 (média diária: 3)
  • Classificação: 4 de 5
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Uma das primeiras memórias de minha infância era ouvir o sino da igreja tocar para a adoração de domingo de manhã na pequena cidade rural onde cresci.  A Igreja Metodista era uma estrutura antiga de madeira com uma torre de sino, duas salas de aula pequenas, mas confortáveis, para crianças na Escola Dominical, portas de madeira para separá-las do santuário, e um balcão elevado que servia de salas de aula para as crianças mais velhas.  Ficava a menos de duas quadras de minha casa.  Quando o sino soava, nos reuníamos como uma família e fazíamos nossa peregrinação semanal para a igreja.

Naquele ambiente rural dos anos 50 as três igrejas na cidade de aproximadamente 500 habitantes eram o centro da vida comunitária.  A Igreja Metodista local, a qual minha família pertencia, patrocinava encontros sociais com sorvete feito em casa, jantares com empadão de galinha e torradas de milho.  Minha família e eu estávamos sempre envolvidos em todos os três, mas cada um acontecia apenas uma vez por ano.  Além disso, havia uma escola bíblica comunitária de duas semanas todo mês de junho, e fui um frequentador regular durante a minha oitava série na escola.  Entretanto, a adoração dominical pela manhã e a escola dominical eram eventos semanais e me empenhava para continuar aumentando minha coleção de broches de frequência perfeita e de prêmios por memorizar versos da Bíblia.

Na época do meu segundo grau a Igreja Metodista local tinha fechado e estávamos frequentando a Igreja Metodista na cidade vizinha, que era ligeiramente maior que a da cidade na qual vivia.  Lá, pela primeira vez, meus pensamentos começaram a focar no ministério como um chamado pessoal.  Tornei-me ativo no Grupo Jovem Metodista e eventualmente servi como representante de distrito e de conferências.  Também me tornei um “pregador” regular durante o serviço jovem de domingo.  Minha pregação começou a chamar a atenção de toda a comunidade e logo eu estava ocasionalmente frequentando os púlpitos de outras igrejas, creches e vários grupos de jovens e de senhoras afiliados à igreja, onde em geral eu batia recordes de comparecimento.

Com a idade de 17, quando comecei meu primeiro ano na Universidade de Harvard, minha decisão de entrar no ministério tinha se solidificado.  Durante esse ano me inscrevi em um curso de dois semestres em religião comparada, que era ensinado por Wilfred Cantwell Smith, cuja área de especialização era Islã.  Durante o curso dei muito menos atenção ao Islã do que às outras religiões, como Hinduísmo e Budismo, já que essas duas pareciam muito mais esotéricas e estranhas para mim.  Em contraste, o Islã parecia ser de alguma forma semelhante ao meu próprio Cristianismo.  Como tal, não me concentrei nele tanto quanto provavelmente deveria, embora me lembre de escrever um trabalho para o curso sobre o conceito de revelação no Alcorão.  Entretanto, como o curso tinha exigências e padrões acadêmicos rigorosos, adquiri uma pequena biblioteca de meia dúzia de livros sobre o Islã, todos escritos por não-muçulmanos, os quais me serviriam muito 25 anos depois.   Também adquiri duas traduções diferentes em inglês do significado do Alcorão, que li na época.

Naquela primavera Harvard me nomeou um bolsista Hollis, o que significava que era um dos pré-estudantes de teologia mais importantes na universidade.  No verão entre meu primeiro e segundo anos em Harvard trabalhei como um ministro de jovens em uma grande Igreja Metodista Unida.  No verão seguinte obtive minha Licença para Pregar da Igreja Metodista Unida.  Quando me graduei na Universidade de Harvard em 1971, me inscrevi na Escola de Divindade de Harvard, onde obtive meu Mestrado em Divindade em 1974.  Previamente tinha sido ordenado no Diaconato da Igreja Metodista Unida em 1972 e antes havia recebido uma bolsa Stewart da Igreja Metodista Unida, como complemento às minhas bolsas da Escola de Divindade de Harvard.  Durante minha educação seminarista também completei um programa de dois anos como capelão no Hospital Peter Bent Brigham em Boston.  Em seguida à minha graduação na Escola de Divindade de Harvard, passei o verão como ministro de duas igrejas Metodistas Unidas na área rural de Kansas, onde o comparecimento foi às alturas de uma forma não vista nessas igrejas em muitos anos.

De fora, eu era um jovem ministro muito promissor, que tinha recebido uma excelente educação, atraído grandes multidões ao serviço religioso dominical e sido bem-sucedido em cada passo no caminho ministerial.  Entretanto, por dentro, estava em luta constante para manter minha integridade pessoal em face das minhas responsabilidades ministeriais.  Essa guerra era muito diferente da que foi presumivelmente travada por alguns televangelistas posteriores, ao tentarem em vão manter sua moralidade sexual pessoal.  Da mesma forma, era muito diferente daquela travada pelos padres pedófilos que hoje ganham as manchetes.  Entretanto, minha batalha para manter integridade pessoal pode ser a mais comum entre os membros mais educados do ministério.

Existe certa ironia no fato de que os supostamente melhores, mais brilhantes e mais idealistas dos futuros ministros sejam selecionados pela melhor educação seminarista, ou seja, aquela oferecida na época na Escola de Divindade de Harvard.  A ironia é que, recebida essa educação, o seminarista é exposto a toda verdade histórica conhecida sobre:

1)    A formação da igreja “principal”, primitiva, e como foi moldada por considerações geopolíticas;

2)    A leitura “original” de vários textos bíblicos, muitos dos quais estão em profundo contraste com o que a maioria dos cristãos lê quando pegam sua Bíblia embora, gradualmente, algumas dessas informações estejam sendo incorporadas às novas e melhores traduções;

3)    A evolução desses conceitos como uma divindade trina e a “filiação” de Jesus, que Deus o louve;

4)    As considerações não-religiosas que formam a base de muitas crenças e doutrinas cristãs;

5)    A existência daquelas igrejas e movimentos cristãos primitivos que nunca aceitaram o conceito de uma divindade trina e que nunca aceitaram o conceito de divindade de Jesus, que Deus o louve; e

6)    etc.  (Alguns dos frutos de minha educação seminarista são recontados em mais detalhes em meu recente livro The Cross and the Crescent: An Interfaith Dialogue between Christianity and Islam (A Cruz e o Crescente: Um Diálogo Inter-religioso entre o Cristianismo e o Islã, em tradução livre, Amana Publications, 2001)

Dessa forma, não é de surpreender que praticamente a maioria dos graduados nesse seminário deixe o seminário não para “encher púlpitos”, onde teriam que pregar o que sabem não ser verdade, mas para entrar em várias profissões de aconselhamento.  Esse também foi o meu caso, que prossegui na obtenção de um mestrado e doutorado em psicologia clínica.  Continuei a me chamar de cristão, porque essa era uma parte necessária de auto-identidade e porque eu era, afinal de contas, um ministro ordenado, apesar de meu emprego em tempo integral ser um profissional da área de saúde mental.  Entretanto, minha educação no seminário tinha dado conta de qualquer crença que pudesse ter relação com a divindade trina ou a divindade de Jesus, que Deus o louve. (Pesquisas regulares revelam que os ministros estão menos propensos a acreditar nesses e outros dogmas da igreja do que os leigos que servem, com ministros mais propensos a entender metaforicamente termos como “filho de Deus”, enquanto seus paroquianos o entendem literalmente.)  Assim me tornei um “cristão de Natal e Páscoa”, frequentando a igreja muito esporadicamente e rangendo meus dentes e mordendo a língua quando ouvia a sermões apoiando o que eu sabia que não era o caso.

Nada do que foi dito deve ser tomado como implicando que eu fosse menos religioso ou orientado espiritualmente do que costumava ser.  Orava regularmente, minha crença em uma deidade suprema permanecia sólida e segura e conduzia minha vida pessoal de acordo com a ética que me foi um dia ensinada na igreja e escola dominical.  Simplesmente tinha conhecimento suficiente para não comprar dogmas feitos pelo homem e artigos de fé da igreja organizada fortemente apoiados em influências pagãs, noções politeístas e considerações geopolíticas de uma época antiga.

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