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N.K, Ex-Católico, EUA (parte 1 de 5)
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Descrição:
Um católico que rejeita a fé e adota a Filosofia e posteriormente aceita o Islã, devido a muitas perguntas não-respondidas. Parte 1: Dúvidas na fé.
Por N.K.
Publicado em 13 Jul 2009 - Última modificação em 13 Jul 2009
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> Histórias de Novos Muçulmanos
> Homens
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Nascido em 1954 no interior do
noroeste dos Estados Unidos, fui criado em uma família religiosa como católico
romano. A Igreja proveu um mundo espiritual que era inquestionável em minha
infância, e mais real do que o mundo físico ao meu redor, mas à medida que
cresci e especialmente depois de entrar para a universidade católica e ler
mais, minha relação com a religião se tornou cada vez mais questionável, na
crença e na prática.
Uma razão foram as mudanças
frequentes na liturgia e rituais católicos ocorridos no Concílio Vaticano II de
1963, que sugeriu aos leigos que a Igreja não tinha padrões firmes. O clero
falava sobre flexibilidade e relevância litúrgica, mas para os católicos
comuns, eles pareciam estar tateando no escuro. Deus não muda a revelação, nem
as necessidades da alma humana, e não havia nenhuma nova revelação dos céus. Ainda
assim nos apegávamos a essas mudanças, semana após semana, ano após ano,
adicionando, subtraindo, mudando a língua de latim para inglês e, finalmente,
introduzindo guitarras e música folclórica. Os padres explicavam e explicavam
enquanto os leigos balançavam as cabeças. A busca por relevância deixou
grandes números convencidos de que não havia muita em primeiro lugar.
Uma segunda razão foi um número
de dificuldades doutrinárias, como a doutrina da Trindade, que ninguém na
história do mundo, padre ou leigo, foi capaz de explicar de forma convincente,
e que se resolve por si mesma, para a mente comum pelo menos, como um tipo de
divindade-por-comitê, compartilhada entre Deus o Pai, que governava o mundo dos
céus; Seu filho Jesus Cristo, que salvou a humanidade na terra; e o Espírito
Santo, que era retratado como uma pomba branca e parecia ter um papel
consideravelmente menor. Lembro de querer fazer amizade especial com pelo
menos um deles para que pudesse melhorar minha situação com os outros, e com
essa finalidade, às vezes orava determinadamente para um e às vezes para o
outro; mas os outros dois estavam sempre teimosamente lá. Finalmente decidi
que Deus o Pai devia estar encarregado dos outros dois, e isso colocou um
obstáculo formidável no caminho do meu catolicismo, a divindade de Cristo. Além
disso, a reflexão deixou claro que a natureza do homem contradizia a natureza
de Deus em todos os detalhes, o limitado e o finito de um lado, o absoluto e o
infinito de outro. Que Jesus fosse Deus era algo que não podia me lembrar de
ter realmente acreditado, na infância ou mais tarde.
Outro ponto de incredulidade
foi a negociação da Igreja em ações e bônus no paraíso chamada de indulgências,
o “faça isso e aquilo e muitos anos serão diminuídos de sua sentença no
purgatório” que parecia tão falso a Martim Lutero no surgimento da Reforma.
Também me lembro de um desejo
por uma escritura sagrada, um livro que pudesse prover orientação. Uma Bíblia
foi dada a mim em um Natal, uma bela edição, mas ao tentar lê-la, a descobri
tão desconexa e destituída uma linha coerente que foi difícil pensar numa forma
de basear a vida nela. Somente mais tarde aprendi como os cristãos resolvem a
dificuldade na prática, os protestantes criando teologias sectárias, cada qual
enfatizando os textos de sua seita e minimizando o resto; os católicos
minimizando tudo, exceto os fragmentos mencionados em sua liturgia. Algo
parecia faltar em um livro sagrado que não podia ser lido como um todo.
Além disso, quando fui para a
universidade, descobri que a autenticidade do livro, especialmente o Novo
Testamento, tinha ficado sob dúvida considerável como resultado dos estudos
hermenêuticos modernos feitos pelos próprios cristãos. Em um curso sobre
teologia contemporânea, li a tradução de Norman Perrin do The Problem of the
Historical Jesus (O Problema do Jesus Histórico, em tradução livre) de
Joachim Jeremias, um dos principais estudiosos do Novo Testamento desse século.
Um crítico textual que era um mestre das línguas originais e tinha passado
muitos anos com os textos, ele finalmente concordou com o teólogo alemão
Rudolph Bultmann, que sem uma dúvida, disse que o sonho de escrever uma
biografia de Jesus acabou, significando que a vida de Cristo como ele de fato a
viveu não podia ser reconstruída a partir do Novo Testamento com qualquer nível
de confiança. Se isso é aceito de um amigo do Cristianismo e um dos seus mais
destacados especialistas textuais, pensei, o que sobrava para ser dito pelos
inimigos? E o que restou da Bíblia exceto reconhecer que era um registro de
verdades misturadas com ficções, conjecturas projetadas sobre Cristo por
seguidores posteriores, eles próprios em desacordo entre si sobre quem o mestre
tinha sido e o que ele ensinou? E se teólogos como Jeremias podiam se ressegurar
de que em algum lugar sob as camadas de adições posteriores ao Novo Testamento
havia algo chamado o Jesus histórico e sua mensagem, como as pessoas comuns
esperavam encontrá-la, ou conhecê-la, se fosse encontrada?
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N.K, Ex-Católico, EUA (parte 2 de 5)
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Descrição:
Um católico que rejeita a fé e adota a Filosofia e posteriormente aceita o Islã, devido a muitas perguntas não-respondidas. Parte 2: O estudo da Filosofia e a leitura do Alcorão.
Por N.K.
Publicado em 20 Jul 2009 - Última modificação em 20 Jul 2009
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> Histórias de Novos Muçulmanos
> Homens
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Estudei filosofia na
universidade e ela me ensinou a fazer duas coisas com quem quer que reivindique
ter a verdade: O que você quer dizer e como você sabe? Quando fiz essas
perguntas às minhas próprias tradições religiosas, não encontrei respostas e
percebi que o Cristianismo tinha escorregado de minhas mãos. Então embarquei
em uma busca que talvez não seja estranha a muitos jovens no Ocidente, uma
busca por significado em um mundo sem sentido.
Comecei onde tinha perdido
minha crença anterior, com os filósofos, ainda querendo acreditar, buscando não
a filosofia, mas uma filosofia.
Li os ensaios do maior
pessimista, Arthur Schopenhauer, que ensinou sobre o fenômeno das idades da
vida, e que dinheiro, fama, força física e inteligência passarão com a passagem
dos anos, mas apenas a excelência moral permaneceria. Aprendi essa lição e lembrei-me
dela depois de anos. Seus ensaios também chamavam a atenção para o fato de que
uma pessoa costumava repudiar nos anos posteriores o que abraçava de forma
ardente no calor da juventude. Com um desejo presciente de encontrar o Divino,
decidi me imbuir com os argumentos mais convincentes do ateísmo que pude
encontrar, porque talvez pudesse encontrar uma forma de sair deles depois. Então
li as traduções de Walter Kaufmann das obras do defensor da imoralidade
Friedrich Nietzsche. O gênio multifacetado dissecou os julgamentos morais e
crenças da humanidade com argumentos filológicos e psicológicos brilhantes que
terminaram na acusação da linguagem humana em si, e a linguagem da ciência do
século 19 em particular, de ser tão inerentemente determinada e mediada por
conceitos herdados da linguagem da moralidade que em sua forma presente não
podiam jamais ter esperanças de descobrir a realidade. Colocando de lado o seu
valor imunológico contra o ceticismo total, as obras de Nietzsche explicavam
porque o Ocidente era pós-cristão, e de forma precisa predizia a selvageria sem
precedentes do século 20, derrubando o mito de que a ciência podia funcionar
como uma substituição moral para a agora religião morta.
A nível pessoal, suas tiradas
contra o Cristianismo, particularmente na Genealogia da Moral, me deram o
benefício de destilar as crenças da tradição monoteísta em um pequeno número de
formas analisáveis. Ele separou conceitos não-essenciais (como o espetáculo bizarro
do suicídio de uma deidade onipotente na cruz) dos essenciais, que sei, embora
sem acreditar neles, compreendia serem apenas três: que Deus existia; que Ele
criou o homem no mundo e definiu sua conduta esperada nele; e que Ele julgaria
o homem adequadamente na outra vida e o enviaria para a recompensa ou punição
eternas.
Foi durante esse período que li
uma tradução do Alcorão que relutantemente admirei, entre reservas agnósticas,
pela pureza com a qual apresentava esses conceitos fundamentais. Mesmo falsas,
pensei, não podia haver uma expressão mais essencial de religião. Como
trabalho literário, a tradução não era inspirada e era abertamente hostil ao
assunto, embora eu soubesse que o original árabe era amplamente reconhecido por
sua beleza e eloquência entre os livros religiosos da humanidade. Senti um
desejo de aprender árabe para ler o original.
Em casa, de férias das aulas,
estava andando em uma estrada poeirenta entre alguns campos de trigo e
aconteceu do sol se pôr. Por alguma inspiração, percebi que era um momento de
adoração, um momento de se prostar para Deus. Mas não era algo que alguém
pudesse apoiar-se em si mesmo para fornecer os detalhes, mas ao contrário, uma
fantasia passageira, ou talvez o começo de uma conscientização de que o ateísmo
não era uma forma autêntica de ser.
Levei comigo um pouco dessa inquietude
quando me transferi para a Universidade de Chicago, onde estudei a epistemologia
da teoria ética, como os julgamentos morais são alcançados, lendo e procurando
entre os livros dos filósofos por algo que lançasse uma luz sobre a questão da
falta de significado, que era ao mesmo tempo uma preocupação pessoal e o centro
dos problemas filosóficos de nossa época.
De acordo com alguns, a
observação científica podia apenas produzir afirmações de descrição da forma X
ser Y, por exemplo. O objeto é vermelho, seu peso é dois quilos, sua altura é
dez centímetros, e assim por diante, nos quais o funcional fosse um 'é'
verificável cientificamente, enquanto que nos julgamentos morais o elemento
funcional era um 'deve’', uma afirmação de descrição que nenhuma observação
científica podia medir ou verificar. Parecia que
‘dever’ era logicamente sem significado, e com isso todo tipo de moralidade,
uma posição que me lembrou daquelas descritas por Lucian em seu alerta de que
quem quer que veja um filósofo moral vindo pela estrada deve fugir dele como de
um cachorro louco. Para essa pessoa, a conveniência
governava, e nada verificava seu comportamento exceto o que era conveniente.
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N.K, Ex-Católico, EUA (parte 3 de 5)
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Descrição:
Um católico que rejeita a fé e adota a Filosofia e posteriormente aceita o Islã, devido a muitas perguntas não-respondidas. Parte 3: Reflexões durante pescaria no Alasca.
Por N.K.
Publicado em 27 Jul 2009 - Última modificação em 27 Jul 2009
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> Histórias de Novos Muçulmanos
> Homens
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Como Chicago era uma
universidade mais cara, tinha que levantar o dinheiro para os meus custos de
educação e encontrei trabalho de verão na Costa Oeste com um barco de pesca no
Alasca. O mar provou ser uma escola em pleno direito, uma para a qual retornei
por um período de oito temporadas, pelo dinheiro. Encontrei muitas pessoas nos
barcos e vi um pouco do poder e grandeza do vento, da água, tempestades e
chuva, e a pequenez do homem. Essas coisas se apresentam diante de nós como um
imenso livro, mas meus companheiros pescadores e eu pudemos discernir somente
as letras que estavam dentro de nosso contexto: pegar quantos peixes fosse
possível dentro do tempo especificado para vendê-los aos compradores. Poucos
sabiam ler o livro como um todo. Às vezes, de repente, as ondas subiam como
grandes montes e o capitão segurava o leme com pontas brancas, enquanto nossa
proa mergulhava profundamente em um vale de água verde, para descer no momento
seguinte e ressurgir em direção ao céu antes de chegar ao topo da próxima
crista e descer novamente.
No início de minha carreira
como marujo tinha lido a tradução de Hazel Barnes para “O Ser e o Nada” de Jean
Paul Sartre, no qual ele argumentava que o fenômeno somente chega à consciência
no contexto existencial dos projetos humanos, um tema que evocava os manuscritos
de Marx de 1844. A natureza era produzida pelo homem, significando, por
exemplo, que quando o místico vê um grupo de árvores, sua consciência
hipostatiza um objeto fenomenal inteiramente diferente de um poeta, por
exemplo, ou um capitalista. Para o místico, é uma manifestação; para o poeta,
uma floresta; para o capitalista, madeira. De acordo com essa perspectiva, uma
montanha só parece muito alta dentro do contexto do projeto de escalá-la, e
assim por diante, de acordo com as relações instrumentais envolvidas em vários
interesses humanos. Mas os grandes eventos naturais do mar que nos cercava
pareciam desafiar, com sua teimosia, irredutível factualidade, nossas
tentativas incompreensíveis de chegarmos a termos com eles. Repentinamente
estávamos lá, sacudidos pelas forças à nossa volta sem compreendê-las, nos
perguntando se sobreviveríamos. Alguns, era verdade, pediam ajuda a Deus
nesses momentos, mas quando retornávamos a salvo para a costa, nos
comportávamos como homens que sabiam pouco sobre Ele, como se aqueles momentos
tivessem sido um lapso na insanidade, embaraçosos para pensar a respeito nos
momentos mais felizes. Foi uma das lições do mar que, de fato, tais eventos
não somente existem, mas talvez até preponderem em nossa vida. O homem era pequeno
e fraco, as forças à sua volta eram grandes e ele não as controlava.
Às vezes um barco afundava e
homens morriam. Lembro de um pescador de outro barco que trabalhava próximo de
nós fazendo o mesmo trabalho que eu fazia, empilhar a rede. Ele sorria
atravessando a água enquanto puxava a rede do bloco hidráulico, empilhando-a
esmeradamente na popa para deixá-la pronta para o próximo trabalho. Algumas
semanas depois, seu barco virou enquanto pescavam em uma tempestade, e ele foi
pego na rede e afundou. Eu o vi somente mais uma vez, em um sonho, acenando
para mim da popa de seu barco.
A monstruosidade das cenas nas
quais vivíamos, as tempestades, os rochedos íngremes com metros de altura que
surgiam como torres das águas, o frio, a chuva e a fadiga, os ferimentos
ocasionais e mortes de trabalhadores – causavam pouca impressão na maioria de
nós. Supostamente os pescadores eram, afinal de contas, durões. Em um barco,
foi dito que a família que trabalhava nele perdia um membro ocasional da
tripulação quando navegava no mar no final da temporada, invariavelmente o
único não-membro da família, e sua perda os salvava de salários que de outra
forma teriam que ser pagos.
O capitão de outro era um homem
de vinte e sete anos que entregava milhões de dólares em siris por ano no Mar
de Bering. Quando ouvi falar dele pela primeira vez, estávamos em Kodiak,
tinham amarrado seu barco na doca da cidade depois de uma longa viagem de
alguns dias. O capitão estava indisposto no momento em seu beliche no
camarote, onde tinha vomitado sangue por ter comido vidro na noite anterior
para provar o quanto era durão.
Estava de certa forma em
condições melhores quando o vi depois no Mar de Bering no final de um longo
inverno da temporada de pesca do siri. Ele trabalhava em sua casa do leme,
cercado por rádios que podiam captar um sinal de qualquer lugar, computadores,
sonares, medidores de profundidade, radares. Seus painéis de luzes e
comutadores eram ajustados para varredura de 180 graus das janelas à prova de
estilhaçamento que observavam o mar e os homens no convés abaixo, com quem se
comunicava através de alto-falante. Geralmente trabalhavam sem parar, puxando
sua engrenagem da água gelada sob as baterias vigilantes de enormes luzes
elétricas presas aos mastros que transformavam a noite perpétua dos meses de
inverno em dia. O capitão tinha uma reputação de falar aos gritos, e uma vez
fechou sua tripulação no convés na chuva por onze horas porque um deles entrou
para tomar uma xícara de café sem permissão. Poucos ficavam com ele por mais
de uma temporada, embora ganhassem quase o dobro por ano do que, digamos, um
advogado ou um executivo de publicidade, e em apenas seis meses. Fortunas eram
feitas no Mar de Bering naqueles anos, antes do excesso de pesca eliminar o
siri.
No momento, ele estava
ancorado, e amigável o suficiente quando fizemos a amarração para ele, e veio a
bordo para sentar e conversar com nosso capitão. Falaram muito, às vezes
fitando pensativamente o mar através da porta ou janelas, às vezes olhando um
para o outro de forma penetrante quando algo os animava, como o tópico de o que
seus rivais pensavam dele. “Eles se perguntam por que tenho poucos homens”,
disse ele. “Bem, dormi em minha própria casa um noite no ano passado.”
Depois sua tripulação subiu a âncora,
enquanto seus olhos observavam com cautela a água das janelas da casa. Sua
vigilância, sua compleição de morsa, suas viagens sem fim atrás de jogo e
mercados, me lembraram de outros animais predadores do mar. Essas pessoas, boas
em fazer dinheiro mas negligentes em relação a qualquer objetivo ou propósito
final, me impressionavam, e cada vez mais comecei a me perguntar se os homens
não precisavam de princípios para guiá-los e dizer-lhes porque estavam aqui. Sem
esses princípios, nada parecia nos distinguir de nossa presa exceto por sermos
mais perfeitos e tecnologicamente capazes de pilhar por mais tempo e em uma
escala maior, e com maior devastação do que os animais que caçávamos.
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N.K, Ex-Católico, EUA (parte 4 de 5)
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Descrição:
Um católico que rejeita a fé e adota a Filosofia e posteriormente aceita o Islã, devido a muitas perguntas não-respondidas. Parte 4: Mais perguntas sem respostas na Filosofia e leituras sobre o Islã.
Por N.K.
Publicado em 03 Aug 2009 - Última modificação em 03 Aug 2009
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> Homens
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Essas considerações estavam em
minha mente no segundo ano que estudei em Chicago, onde me conscientizei
através de estudos dos sistemas morais filosóficos de que a filosofia não tinha
sido bem sucedida em influenciar a moral das pessoas de forma significativa e
prevenir injustiça no passado, e percebi que havia pouca esperança de que faria
isso no futuro. Descobri que comparar sociedades e sistemas culturais humanos
em sua sucessão histórica e multiplicidade tinha levado muitos intelectuais ao
relativismo moral, uma vez que não podia ser descoberto nenhum valor moral que
por seus próprios méritos fosse transculturalmente válido, uma reflexão que
leva ao niilismo, a perspectiva que vê civilizações humanas como plantas que
crescem da terra, espalhando suas várias sementes e solos, florescendo por um
tempo e depois morrendo.
Alguns anunciaram isso como
liberação intelectual, entre eles Emile Durkheim em seu “Formas Elementares da
Vida Religiosa”, ou Sigmund Freud em seu “Totem e Tabu”, que discutiu a
humanidade como se fosse um paciente e diagnosticou suas tradições religiosas
como uma forma de neurose coletiva que poderíamos ter a esperança de curar, ao
aplicar-lhes um ateísmo científico completo, um tipo de salvação através da
ciência pura.
Sobre esse assunto comprei a tradução
de Jeremy Shapiro de “Conhecimento e Interesses Humanos” de Jurgen Habermas,
que argumentava que não havia tal coisa como ciência pura da qual se podia
depender para forjar um aperfeiçoamento contínuo de si mesmo e do mundo. Chamou
isso de cientismo mal entendido, não ciência. A ciência no mundo real, disse
ele, não era livre de valores, quanto menos de interesses. Os tipos de
pesquisa que conseguiam fundos, por exemplo, eram uma função do que sua
sociedade considerava significativo, conveniente, lucrativo ou importante. Habermas
tinha sido de uma geração de acadêmicos alemães que, durante as décadas de
trinta e quarenta, sabia o que estava acontecendo em seu país, mas insistiam
que estavam simplesmente engajados em produção intelectual, que estavam vivendo
no ramo da erudição, e não precisavam se preocupar com o que quer que o estado decida
fazer com suas pesquisas. A horrível indagação que foi vinculada aos
intelectuais alemães quando as atrocidades nazistas se tornaram públicas depois
da guerra fez Habermas pensar profundamente sobre a ideologia de ciência pura.
O que era óbvio era que o otimismo do século dezenove de pensadores como Freud
e Durkheim não era mais defensável.
Comecei a reavaliar a vida
intelectual ao meu redor. Como Schopenhauer, sentia que o nível mais elevado
de educação devia produzir seres humanos mais elevados. Mas na universidade,
encontrei pessoas do laboratório falando sobre forjar dados de pesquisa para
assegurar o financiamento do próximo ano, eruditos que não permitiam que
gravassem suas aulas por medo que os rivais no mesmo ramo pudessem avançar com
suas pesquisas e conseguir publicação; professores disputando entre si sobre a
extensão dos planos de ensino de seus cursos. As qualidades morais que estava
acostumado a associar com a humanidade comum e incorrigível pareciam ser
encontradas com a mesma frequência em acadêmicos sofisticados e em pescadores. Riram-se de pescadores que, depois de conseguirem um carregamento de peixe em
uma grande pescaria, andam para lá e para cá na frente dos outros para
deixá-los ver o quanto estão carregados, procurando ostensivamente por mais
peixe, o que dizer dos Phds que se comportam da mesma forma sobre seus
trabalhos e artigos? Senti que seu conhecimento não os tinha desenvolvido como
pessoas, que o segredo do homem mais elevado não reside em sua sofisticação.
Perguntei-me se não tinha me
aprofundado na filosofia tanto quanto possível. Embora ela tivesse
ridicularizado meu Cristianismo e fornecido alguns esclarecimentos genuínos,
ainda não tinha respondido as grandes questões. Além disso, sentia que isso
estava de certa forma conectado (não sabia se era causa ou efeito) ao fato de
nossa tradição intelectual não parecer mais se ver de forma séria. O que
éramos todos nós, filósofos, pescadores, lixeiros ou reis, se não jogadores em
um drama que não entendíamos, desempenhando diligentemente nossos papéis até
que nossos substitutos fossem enviados e fizéssemos nosso último desempenho? Mas
podia-se genuinamente esperar por mais que isso? Li “Kojves Introduction to
the Reading of Hegel” (Introdução de Kojves à Leitura de Hegel, em
tradução livre), no qual ele explicava que para Hegel a filosofia não culminava
no sistema, mas no Homem Sábio, alguém capaz de responder a qualquer questão
possível sobre implicações éticas das ações humanas. Isso me fez considerar
nossa própria condição no século vinte, que não podia mais responder a uma
única questão ética.
Era como se esse domínio sem
paralelo desse século das coisas concretas, tivesse de alguma forma nos feito
de coisas. Contrastei isso com o conceito de Hegel do concreto em sua
“Fenomenologia da Mente”. Um exemplo do abstrato, em seus termos, era a
realidade física limite do livro que agora tem em suas mãos, enquanto que o
concreto era sua interconexão com as realidades maiores que pressupunha, os
modos de produção que determinaram o tipo de tinta e papel, os padrões
estéticos que ditaram sua cor e design, os sistemas de marketing e distribuição
que o levaram ao leitor, as circunstâncias históricas que construíram a
alfabetização e gosto dos leitores; os eventos culturais que tinham mediado seu
estilo e uso; em resumo, o quadro maior no qual foi articulado e passou a
existir. Para Hegel, o movimento de investigação filosófica sempre leva do
abstrato ao concreto, ao mais real. Ele era, portanto, capaz de dizer que a
filosofia necessariamente levava à teologia, cujo objeto era o basicamente
real, a Divindade. Isso me pareceu apontar para uma carência irredutível em
nosso século. Comecei a me perguntar se, ao materializar nossa cultura e nosso
passado, não tínhamos de alguma forma nos abstraído de nossa humanidade mais
ampla, de nossa verdadeira natureza em relação à realidade mais elevada.
Nesse ponto li várias obras
sobre o Islã, entre elas os livros de Seyyed Hossein Nasr, que acreditava que
muitos dos problemas do homem ocidental, especialmente aqueles relacionados ao
meio ambiente, derivavam de ter deixado a sabedoria divina da religião
revelada, que o ensinou seu verdadeiro lugar como uma criatura de Deus no mundo
natural e a compreendê-lo e respeitá-lo. Sem isso, ele queimava e consumia a
natureza com estilos tecnológicos de exploração comercial cada vez mais
efetivos que arruinaram esse mundo enquanto ficava cada vez mais vazio por
dentro, porque ele não sabia por que existia ou com qual objetivo devia agir.
Refleti que podia ser verdade,
mas continuava com a pergunta em relação à religião revelada. Tudo na face da
terra, todos os sistemas religiosos e morais, estavam no mesmo plano, a menos
que se pudesse obter certeza de que um deles era de uma fonte mais elevada, a
garantida da objetividade, da força completa, da lei moral. De outra forma, a
opinião de um homem era tão boa quanto a de outros, e continuávamos em um mar
sem diferenciação de interesses individuais conflitantes, no qual nenhuma
objeção válida pode ser levantada sobre o forte comer o fraco.
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N.K, Ex-Católico, EUA (parte 5 de 5)
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Descrição:
Um católico que rejeita a fé e adota a Filosofia e posteriormente aceita o Islã, devido a muitas perguntas não-respondidas. Parte 5: Uma viagem ao Egito e a aceitação do Islã.
Por N.K.
Publicado em 10 Aug 2009 - Última modificação em 10 Aug 2009
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Li outros livros sobre o Islã e
encontrei passagens traduzidas por W. Montgomery Watt de “O que Liberta do
Erro” do teólogo e místico Ghazali, que, depois de uma crise de meia-idade de
questionamentos e dúvidas, percebeu que além da luz da revelação profética não
existe luz na face da terra da qual se possa receber iluminação, o mesmo ponto
ao qual meus questionamentos filosóficos tinham levado. Aqui estava, nos
termos de Hegel, o Homem Sábio, na pessoa de um mensageiro divinamente
inspirado que sozinho tinha a autoridade de responder a questões do bom e do
mal.
Também li a tradução de “O
Alcorão Interpretado” de A.J. Arberry, e me lembrei de meu desejo inicial de um
livro sagrado. Mesmo em tradução a superioridade da escritura muçulmana sobre
a Bíblia era evidente em cada linha, como se a realidade da revelação divina,
ouvida vagamente toda a minha vida, tivesse agora se colocado diante de meus
olhos. Seu estilo exaltado, seu poder, sua finalidade inexorável, sua maneira
fantástica de antecipar os argumentos do coração ateu e respondê-los; era uma
exposição clara de Deus como Deus e homem como homem, a revelação que impõe
respeito da Unidade Divina sendo a revelação idêntica de justiça social e
econômica entre os homens.
Comecei a aprender árabe em
Chicago, e depois de estudar a gramática por um ano com um bom nível de
sucesso, decidi pedir uma licença para tentar avançar na língua em um ano de
estudo particular no Cairo. Também me atraía um desejo por novos horizontes, e
depois de uma terceira temporada de pescaria, fui para o Oriente Médio.
No Egito encontrei algo que
acredito que traga muitos para o Islã, a marca do puro monoteísmo em seus
seguidores, que me impressionou de forma mais profunda do que qualquer coisa
que tivesse encontrado antes. Encontrei muitos muçulmanos no Egito, bons e maus,
mas todos influenciados pelos ensinamentos de seu Livro em uma extensão que
nunca tinha visto em lugar nenhum. Já se passaram quinze anos desde então, e
não posso me lembrar de todos, ou até da maioria deles, mas talvez aqueles que
posso lembrar servirão para ilustrar as impressões que deixaram.
Um foi um homem no lado do Nilo
próximo aos Jardins Miqyas, onde eu costumava caminhar. Encontrei-o orando em
um pedaço de papelão, com o rosto voltado para a direção da água. Comecei a
passar na frente dele, mas repentinamente me corrigi e andei à sua volta, para
não perturbá-lo. Enquanto observava um pouco antes de seguir meu caminho,
olhava para um homem absorto em sua relação com Deus, ignorando minha presença,
e mais ainda minhas opiniões sobre ele ou sua religião. Para a minha mente,
havia algo magnificentemente desinteressado sobre isso, ao mesmo tempo estranho
para alguém vindo do Ocidente, onde orar em pública era virtualmente a única
coisa que continuava obscena.
Outro foi um garoto do segundo
grau que me saudou próximo do Khan al-Khalili, e porque eu falava um pouco de
árabe e ele um pouco de inglês e queria me falar sobre o Islã, caminhou comigo
vários quilômetros da cidade até Giza, me explicando o máximo que podia. Quando
nos separamos, acho que ele fez uma súplica para que me tornasse muçulmano.
Outro foi um amigo iemenita
morando no Cairo que me trouxe uma cópia do Alcorão a meu pedido, para me
ajudar a aprender árabe. Eu não tinha uma mesa do lado da cadeira onde
costumava me sentar e ler em meu quarto de hotel, e era meu costume empilhar os
livros no chão. Quando coloquei o Alcorão do lado dos outros lá, ele
silenciosamente se abaixou e o pegou, por respeito. Isso me impressionou
porque sabia que ele não era religioso, mas ali estava o efeito do Islã sobre
ele.
Outra foi uma mulher que
encontrei enquanto caminhava do lado de uma bicicleta em uma estrada
não-pavimentada do lado oposto do Nilo, em Luxor. Estava empoeirado e, de certa forma, mal vestido, e ela era uma mulher idosa vestida
de preto dos pés a cabeça que estava caminhando e que sem uma palavra ou olhar,
colocou uma moeda em minha mão tão repentinamente que em minha surpresa a
deixei cair. Quando a peguei, ela tinha se apressado e afastado. Como ela
pensou que eu fosse pobre, mesmo obviamente não sendo muçulmano, me deu algum
dinheiro sem esperar nada, exceto o que havia entre ela e seu Deus. Esse ato
me fez pensar muito sobre o Islã, porque nada parecia tê-la motivado, exceto
isso.
Muitas outras coisas se
passaram em minha mente durante os meses que fiquei no Egito para aprender
árabe. Encontrei-me pensando que um homem deve ter algum tipo de religião e eu
estava mais impressionado pelo efeito do Islã nas vidas dos muçulmanos, certa
nobreza de propósito e generosidade da alma, um efeito que eu jamais tinha
visto por qualquer outra religião ou mesmo ateísmo sobre seus seguidores. Os
muçulmanos pareciam ter mais do que eu.
O Cristianismo tem seus pontos
bons certamente, mas pareciam se misturar com confusões, e me encontrei mais e
mais inclinado a olhar para o Islã por sua expressão mais completa e perfeita.
A primeira pergunta que tínhamos memorizado em nosso catecismo tinha sido “Por
que você foi criado?” Para ela a resposta correta era “Para conhecer, amar e
servir a Deus”. Quando refleti sobre aqueles ao meu redor, percebi que o Islã
parecia prover a forma mais abrangente e compreensível de praticar isso
diariamente.
Quanto ao inglório destino
político dos muçulmanos hoje, não senti que fosse uma mancha contra o Islã, ou
que o relegasse a uma posição inferior em uma ordem natural de ideologias
mundiais, mas o vi como uma fase baixa em um ciclo mais amplo da história. A
hegemonia estrangeira sobre as terras muçulmanas tem sido testemunhada na
profunda destruição da civilização islâmica no século treze pelas hordas
mongóis, que arrasaram cidades e construíram pirâmides de cabeças humanas das
estepes da Ásia Central até o coração das terras islâmicas, depois do qual a
plenitude do destino trouxe o Império Otomano para elevar a Palavra de Deus e
fazê-la uma realidade política vibrante que resistiu por séculos. Agora,
refleti, era simplesmente o tempo dos muçulmanos contemporâneos se empenharem
para uma nova cristalização histórica do Islã, algo que pode-se muito bem
aspirar compartilhar.
Quando um amigo no Cairo me
perguntou um dia por que eu não me tornava muçulmano, descobri que Deus tinha
criado dentro de mim um desejo de pertencer a essa religião, que enriquecia
seus seguidores, dos corações mais simples aos intelectos mais magistrais. Não
é através de um ato da mente ou vontade que alguém se torna muçulmano, mas
através da misericórdia de Deus, e isso, na análise final, foi o que me trouxe
ao Islã no Cairo em 1977.
“Porventura,
não chegou o momento de os crentes humilharem os seus corações à recordação de
Deus e à verdade revelada, para que não sejam como os que antes receberam o
Livro? Porém, longo tempo passou, endurecendo-lhes os corações, e a sua maioria
é rebelde e transgressora. Sabei
que Deus vivifica a terra, depois de ter sido árida. Elucidamos-vos os
versículos, para que raciocineis.” (Alcorão 57:16-17)
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