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Metodologia Histórica Moderna vs. Metodologia dos Hadiths (parte 1 de 5): Metodologia Histórica Ocidental
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Descrição:
Uma comparação entre métodos modernos de registro da história e os usados nos hadiths. Parte 1: Metodologia Histórica Ocidental Moderna e criticismo externo.
Por Reem Azzam
Publicado em 29 Aug 2011 - Última modificação em 29 Aug 2011
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> O Profeta Muhammad
> Sobre Seus Ditos
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O estudo dos hadiths remonta a séculos e
tem sido tema de muita discussão entre muçulmanos e não-muçulmanos. Alguns
estudiosos consideram as coletâneas de hadith como não autênticas e algo a ser
descartado, enquanto outros alegam o oposto. Onde exatamente reside a verdade?
Como ponto de partida, é útil examinar o criticismo de acordo com a
metodologia dos hadiths comparado ao criticismo de acordo com a metodologia
histórica ocidental moderna. Portanto, o propósito desse trabalho deve ser
primeiro explicar as diretrizes gerais para autenticação e verificação de
fontes históricas, depois explicar as diretrizes gerais usadas na autenticação
e verificação de hadiths e, finalmente, comparar os dois processos.
Metodologia Histórica Ocidental Moderna
Quando eventos ocorrem podem ser
conhecidos por contemporâneos que passaram adiante seu conhecimento e
compreensão (Lucey 20)
Na vida cotidiana as pessoas aceitam que o conhecimento de eventos pode ser passado
adiante por testemunhas desses eventos e que podem ser transmitidos de forma exata.
De fato, em um tribunal, através do depoimento de testemunhas de um evento
particular os fatos são estabelecidos além de dúvida razoável (Lucey 22). De
acordo com um historiador, “o testemunho confiável é uma fonte incontestável e
indiscutível de eventos históricos” (Lucey 20). É a partir do testemunho
confiável de contemporâneos de eventos que se deriva o conhecimento histórico
(Lucey 18). Consequentemente, o objetivo da metodologia histórica é determinar
se os vários testemunhos que chegam até nós hoje podem ser aceitos com
evidência sólida.
Uma vez que um historiador coletou fontes
que direta ou indiretamente forneçam informação sobre um evento particular (ou
seja, um livro, manuscrito, pedaço de cerâmica, uma foto, um clipe, uma
tradição oral), ele deve avaliá-las usando as técnicas de criticismo. Essas
fontes históricas ou “testemunhas” fornecem informação ou depoimento. O papel
do criticismo externo é estabelecer a autenticidade de uma fonte (o fato de
depoimento) e sua integridade (a isenção de corrupção durante a transmissão). Em
comparação, o criticismo interno se ocupa em estabelecer o significado
verdadeiro de um depoimento e a credibilidade de uma testemunha (Lucey 23). Em
última instância, os princípios básicos do criticismo de fonte levam ao
estabelecimento de fatos ou ao descrédito de fatos previamente estabelecidos
(Marwick 196)
Criticismo Externo
O criticismo externo envolve investigar
a origem de uma fonte particular - em oposição ao seu conteúdo, que é objeto de
criticismo interno. O historiador precisa procurar toda a informação possível
em relação a origem da fonte e possivelmente restaurar a fonte à sua forma
original também (Lucey 23). Isso é necessário para estabelecer a autenticidade
da fonte. Determinar a autenticidade de uma fonte significa estabelecer que o
depoimento é de fato da pessoa a quem é atribuído ou que pertence ao período ao
qual se alega pertencer e que é o que alega ser. Procurar
toda informação possível em relação à origem da fonte também é necessário para
estabelecer a integridade da fonte, ou seja, que não foi corrompida durante sua
transmissão até o momento presente e, caso tenha sido, que as alterações sejam
identificadas.
Existem muitos tipos diferentes de
perguntas que precisam ser respondidas para estabelecer o fato do depoimento,
sendo o criticismo externo o primeiro passo. É preciso determinar a origem da
fonte e também onde foi originalmente encontrada (Marwick 222). Por exemplo, se
um vaso egípcio é encontrado em escavações no Iêmen, onde ele foi encontrado
seria de grande significância no que isso poderia indicar sobre o comércio
entre os dois países. Além disso, é preciso saber a
data da fonte e determinar a proximidade de sua data com as datas pertencentes
ao tópico sob investigação (Marwick 222). Outro assunto importante a determinar
é como se relaciona com outras datas importantes. Toda
essa informação pertencente à origem da fonte será útil na determinação de sua
credibilidade por meio do criticismo interno mais adiante.
Vale notar aqui que os historiadores
distinguem entre autoria e autenticidade, mesmo que “identificar o autor seja o
primeiro passo no estabelecimento de autenticidade” (Lucey 47). É possível que
um documento anônimo seja autêntico, como os escritos primitivos que apareceram
sob pseudônimos, desde que sejam conhecidos a que ano ou período e local pertencem
o documento. Entretanto, em certos casos o autor de um
documento deve ser estabelecido para determinar a autenticidade de uma fonte.
O segundo e último passo no criticismo
externo consiste de um exame da integridade da fonte. Em outras palavras, deve
ser apurado que a fonte ou depoimento chegou ao historiador sem corrupções. Somente
então o fato do depoimento é estabelecido de forma absoluta (Lucey 62). Se
foram feitas mudanças no depoimento, ele deve ser capaz de distinguir o
original das mudanças para que a fonte permaneça autêntica. Embora adições e deleções não intencionais ou intencionais possam
ter sido feitas à fonte original ou suas cópias, deve ser estabelecido que a
fonte ou depoimento é no mínimo substancialmente integral. Vale notar aqui que a corrupção resultante de cópia descuidada é uma
ocorrência muito comum e pode levar a grande mal-entendido (Lucey 62). Com isso
estabelecido, o historiador pode agora prosseguir para avaliar o depoimento.
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Metodologia Histórica Moderna vs. Metodologia dos Hadiths (parte 2 de 5): Criticismo Interno
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Descrição:
Uma comparação entre métodos modernos de registro da história e os usados nos hadiths. Parte 2: Metodologia Histórica Ocidental Moderna e criticismo interno.
Por Reem Azzam
Publicado em 05 Sep 2011 - Última modificação em 05 Sep 2011
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Criticismo Interno
O criticismo interno se ocupa do
conteúdo da fonte e naturalmente segue seu criticismo externo (Lucey 24). O
objetivo nessa etapa é estabelecer a credibilidade do depoimento. Para começar, o historiador deve se assegurar de entender o que a
testemunha quis dizer com seu depoimento. Somente
então o historiador será capaz de determinar de forma adequada a credibilidade
da testemunha em questão. Estabelecer a credibilidade da testemunha significa
estabelecer tanto sua competência (de que fala com conhecimento) e veracidade
(se é confiável). Na prática alguns depoimentos são
rejeitados com base nos testes mencionados anteriormente, embora uma quantidade
considerável de depoimentos seja estabelecida como confiáveis (Lucey 24).
Considerando que a língua está em
mudança constante, determinar o significado verdadeiro de um depoimento não é
uma tarefa fácil. Muitas vezes as palavras não são usadas literalmente e novos
significados são atribuídos a elas. O historiador precisa identificar o
significado que o autor ou testemunha atribui às palavras em particular para
compreender de forma adequada o depoimento. Também precisa estar familiarizado
com os idiomas usados na época da origem da fonte. Obviamente o historiador
deve ser fluente na língua usada na fonte e treinado na filologia para
empreender essa tarefa.
Para entender adequadamente uma fonte
ou depoimento, é necessário saber que tipo de pessoa ou pessoas criaram a
fonte; em outras palavras, quais eram suas atitudes e interesses (Marwick 223).
Deve-se inquirir sobre sua educação, posição na vida, visões políticas e
caráter (Lucey 73). Também é importante sua idade e temperamento (Lucey 78).
Esse conhecimento será útil na determinação da credibilidade da testemunha.
Além disso, é importante saber como e por que a fonte
particular surgiu e para quem era pretendida. Depois de
o historiador ter entendido corretamente o conteúdo do depoimento e o que a
testemunha pretendeu dizer, ele pode seguir adiante examinando a credibilidade
da testemunha.
O próximo passo é estabelecer se a
pessoa ou pessoas por trás da fonte estavam de fato em posição de saber em
primeira mão sobre o assunto sob investigação e se eram honestas. Diz-se que a
atitude adequada nessa conjuntura é não ser nem crédulo nem cético para fazer
justiça à fonte em questão (Lucey 73). Um depoimento de testemunha não deve ser
desconsiderado a menos que tenha sido completamente desacreditado. É aceitável que uma testemunha cometa alguns equívocos desde que seu
depoimento permaneça substancialmente verdadeiro. Nas
palavras de um historiador:
“A credibilidade de depoimento, então, deriva da competência e
veracidade da testemunha e essas duas qualificações não devem ser dadas como
certas. Sua habilidade para observar deve ser estabelecida, a oportunidade para
observar verificada, sua honestidade assegurada, seu depoimento comparado com o
de outra testemunha para descontar os erros que qualquer outra testemunha possa
cometer” (Lucey 73-4).
Entre os itens que ajudam a estabelecer
a credibilidade de uma fonte também está o conhecimento do tipo de fonte,
incluindo sua natureza e propósito (Lucey 77). Cada tipo de fonte terá seu
próprio critério de avaliação. Por exemplo, uma plataforma política não deve
ser analisada da mesma forma que um editorial (Lucey 77). Além disso, a
veracidade, caráter moral e competência de certas testemunhas já estão bem
estabelecidas, particularmente daquelas na vida pública (Lucey 78). Portanto,
os depoimentos dessas testemunhas não precisam ser objetados a menos que se
prove o contrário.
Existem algumas questões com as quais
um historiador deve ser cuidadoso nessa etapa. Deve ser cuidadoso em não supor
que a oportunidade da testemunha para observar significa ter competência. Não
somente é necessário estabelecer que a oportunidade era real, mas também deve
ser estabelecido que uma testemunha competente tirou vantagem disso. Outro
assunto a destacar são as fontes comuns de erro. No topo da lista estão
memória falha e preconceitos, embora fraquezas como sentido falho de observação
também apresentem um desafio sério (Lucey 75). Tal fraqueza da parte da
testemunha ou autor de uma fonte pode facilmente levar a mal-entendidos por
parte do historiador.
Embora historiadores relutem em aceitar
o depoimento de uma única testemunha, é justificável que o façam se a
testemunha for qualificada. Naturalmente é preferível mais de uma testemunha e
quanto mais, melhor. Claro que a testemunha deve ser competente e honesta e
deve ter estado próximo do evento relatado, ou pelo menos ter adquirido seu
conhecimento daqueles que estavam (Lucey 79). Quanto mais qualificadas forem as
testemunhas, mais fácil será a tarefa do historiador. Ele
pode então comparar depoimentos e eliminar erros, assim como usar suas fontes
confiáveis na determinação da confiabilidade de quaisquer novas testemunhas.
Ao comparar uma fonte com outras para
determinar credibilidade, existem três possibilidades: podem concordar com a
fonte em questão, podem discordar ou podem ser omissas. O acordo entre as fontes
não é suficiente para estabelecer a credibilidade de uma fonte em questão. É
preciso determinar se as fontes são independentes ou pode-se suspeitar de uma
conspiração ou dependência sobre uma fonte original (Lucey 80). Especialmente
se um evento foi público, devem haver muitos relatos independentes do mesmo.
Entretanto, se as fontes discordam ou se contradizem, é
preciso examinar o nível da diferença e a natureza das fontes. Diferenças em pontos e detalhes menores não são suficientes para
desacreditar a fonte em questão e, de fato, são comuns e esperados (Lucey 81). Deve-se
ser cuidadoso para não confundir contradições triviais ou aparentes com
contradições reais e perceber que o apego às regras de criticismo de forma
cuidadosa e paciente provavelmente resolverá uma aparente contradição (Lucey
83). Entretanto, se existir uma contradição real, nenhuma das fontes pode ser
usada até que uma delas ganhe credibilidade com base em outras razões. Deve-se lidar com muito cuidado com os depoimentos de partes interessadas
e extremistas se o assunto for um problema controverso.
Um terceiro cenário possível é as
fontes serem omissas sobre o depoimento em questão. A atitude em relação a esse depoimento é negativa, embora não seja imediatamente
rejeitado. Para rejeitar o depoimento deve ser estabelecido que a testemunha
omissa foi capaz de saber sobre o evento e estava em uma posição exigida para relatá-la.
Entretanto, esses são assuntos difíceis de serem estabelecidos.
Após o historiador ter examinado
cuidadosamente suas fontes e aplicado de forma rigorosa as regras de criticismo
externo e interno, ele está pronto para escrever. A ordenação e síntese de
todos os materiais na reconstrução correta de um evento é uma tarefa
desafiadora que envolve interpretação da parte do historiador. A forma na qual
ele interpreta suas fontes confiáveis molda sua reconstrução de um evento
particular.
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Metodologia Histórica Moderna vs. Metodologia dos Hadiths (parte 3 de 5): Metodologia dos Hadiths
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Descrição:
Uma comparação entre métodos modernos de registro da história e os usados nos hadiths. Parte 3: A metodologia dos hadiths.
Por Reem Azzam
Publicado em 12 Sep 2011 - Última modificação em 12 Sep 2011
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> O Profeta Muhammad
> Sobre Seus Ditos
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Um hadith profético é uma narração de ou
sobre o profeta Muhammad (que a misericórdia e as bênçãos de Deus estejam sobre
ele) e é através dos hadiths que os muçulmanos sabem sobre o modo de vida do
profeta, a Sunnah. Esse conhecimento é um pré-requisito necessário para
cumprimento das exigências religiosas mais básicas do muçulmano e o profeta
naturalmente fez dele um ponto para propagar esse conhecimento sobre si mesmo
durante sua vida.
O profeta procurou ensinar seus
Companheiros através de diferentes formas como repetição, questionamento,
ditado e demonstração prática. Após ensiná-los ele ouvia o que tinham
aprendido. Junto com seus Companheiros, delegações do exterior foram educadas
tanto no Alcorão quanto na Sunnah. O profeta os questionava também para ver o
que tinham aprendido (Azami 9)
Além disso, as cartas enviadas pelo profeta, algumas das quais eram muito
longas e lidavam com uma ampla gama de assuntos legais, também constituíam
meios de ensinar sua Sunnah. Aparentemente deve ter havido uma grande produção
escrita no geral, uma vez que é dito que ele teve pelo menos quarenta e cinco
escribas em um momento ou outro (Azami 10). Ele também ditava para diferentes
companheiros como Ali b. Abu Talib e é sabido que enviou cópias de seus sermões
para certas pessoas. Por fim, era o exemplo prático
que ele transmitia aos seus seguidores com instruções claras para fazer como
ele fazia (ou seja, “ore como me viram orar” [Bukhari, Vol. 1, Livro 11, No.
604] e “aprendam de mim os rituais da peregrinação” [Sahih Muslim, Livro sobre
o Hajj, No. 310]). Era conhecido por aconselhar o
questionador a ficar com ele e aprender observando-o (Azami 10).
Outras medidas foram tomadas pelo
profeta para propagar o conhecimento de sua Sunnah, como o estabelecimento do
que pode ser considerado como escolas. É sabido que foram estabelecidas em
Medina logo após sua chegada e que ele enviava professores para vários locais
fora da cidade. Enfatizava a seus Companheiros para passarem adiante o
conhecimento sobre ele e entre seus ditos está “Passe adiante o conhecimento
obtido de mim, mesmo que seja somente um versículo” (Azami 10). Em seu famoso
sermão de despedida relata-se que ele disse: “Aqueles que estão presentes
(aqui) devem transmitir a mensagens para os ausentes.” [Sahih Muslim, Livro sobre o Hajj, No. 310]). Consequentemente, era
uma prática comum entre seus Companheiros informar aos ausentes sobre os ditos
e ações do profeta. Adicionalmente, o profeta
especificamente instruía delegações a ensinarem seu povo o que tinham aprendido
no seu retorno. Encorajava toda essa atividade
informando sobre as grandes recompensas pelo ensino e aprendizado e sobre a
possível punição por se recusar a fazê-lo (Azami 12).
Da parte dos Companheiros do profeta,
deve-se lembrar de como as pessoas tomavam cuidado em observar e imitar as
ações e ditos daquele que amavam e admiravam. É bem conhecida a extensão do
amor que os Companheiros do profeta tinham por ele e que muitos morreriam sem
hesitar para protegê-lo. Devido a isso e às suas excelentes memórias e também
aos vários métodos que o próprio profeta empregou para ensinar sua Sunnah,
seria seguro supor que eles realmente conheciam sua Sunnah. De fato, relatos
mostram que não somente tentaram aprende-la como tentaram preservá-la através
de vários meios como memorização e registro escrito. Existem vários exemplos
dos Companheiros do profeta memorizando juntos e cultivando o que tinham
acabado de aprender do profeta (Azami 13). Muitos deles são conhecidos por
terem registrado os hadiths e, seguindo instruções do profeta, o imitavam com
base no que tinham aprendido. Após a morte do profeta
existem vários relatos mostrando que continuaram em seus esforços para
memorizar, praticar e preservar o que tinham aprendido dele. Além disso, existem relatos mostrando Companheiros como Ali b. Abu
Talib, Ibn Masud e Abu Sa’id al-Khudri aconselhando as pessoas que vieram
depois deles (os Sucessores) a memorizarem os hadiths, o que faziam
individualmente ou em grupos (Azami 15).
Após a morte do profeta o Islã se
propagou além da Arábia para terras distantes. Como os Companheiros do profeta
foram os pioneiros dessa expansão, o conhecimento que tinham dos hadiths foi
levado com eles e nem todo ele permaneceu em Medina. Portanto, é possível que certa Sunnah seja conhecida de um grupo particular de
Companheiros que tinha partido para alguma terra distante. Como mencionado
anteriormente, os Companheiros cuidaram para que os que vieram depois deles, os
Sucessores, continuassem o aprendizado e preservação dos hadiths para que o
conhecimento não fosse perdido. Entretanto, a partir do momento que o
conhecimento da Sunnah não estava mais concentrado em um lugar, mas havia se
espalhado para diferentes partes do mundo muçulmano, a probabilidade de cometer
erros aumentou e, consequentemente, técnicas de criticismo tiveram que ser
desenvolvidas, especialmente após a primeira fitnah (Azami 49). Adicionalmente,
com a propagação da Sunnah, novas técnicas tiveram que ser desenvolvidas para o
aprendizado dos hadiths.
Embora todas as técnicas fossem
importantes na preservação dos hadiths, a prática de um professor ler para seus
alunos era uma técnica particularmente significativa que foi desenvolvida muito
cedo. Isso incluía a leitura pelo professor do livro do aluno, que era uma
cópia completa ou parcial do livro do professor (Azami 17). Alunos e sábios
testavam o conhecimento de seu professor pela inserção de hadiths ao longo do
livro antes de dá-lo ao professor para leitura. Os
professores que não reconheciam as adições eram “denunciados e declarados não
confiáveis” (Azami 17). Adicionalmente, diz-se que a partir do começo do
segundo século, a técnica de leitura pelos alunos para seus professores se
tornou a prática mais comum (Azami 19). Isso era feito na presença de outros
alunos que então comparavam o que tinham em seus livros ou ouviam
cuidadosamente. Ao copiar é dito que geralmente faziam
um círculo após cada hadith e que uma vez que o hadith tivesse sido lido para o
professor uma marca era feita no círculo ou em outro lugar como indicação.
E cada vez adicional que um hadith era lido para o professor
outra marca era feita como indicação e às vezes os sábios liam o mesmo livro
muitas vezes. A razão provavelmente era contrabalançar
os desafios apresentados pelo manuscrito árabe e o relator tinha que ouvir um
hadith particular da pessoa a partir da qual estava transmitindo e transmitir
exatamente o que ouviu (assim a gradação dos relatores se tornou necessário
para saber que fez isso melhor) (Burton 110-111)
Além disso, desde o princípio, a necessidade de revisar cópias
se tornou evidente e é relatado que os professores ajudavam seus alunos nessa
tarefa para eliminar erros de cópia. É importante
saber que quem não seguia os métodos adequados no ensino ou compilação de seu
próprio livro podia ser acusado de roubar hadiths, mesmo que o material fosse
autêntico. Então, era crítico que o hadith fosse
obtido de forma adequada. Existem várias outras
técnicas, mas para o propósito desse trabalho é importante saber que os sábios
dos hadiths usavam termos especiais na transmissão de um hadith, dependendo da
técnica empregada em ensiná-lo. Também vale destacar que esses termos especiais como
“haddathana,” “akhbarana” e “an” são frequentemente confundidos como
significando que a transmissão foi estritamente oral, embora tenha sido
demonstrado que não era esse o caso.
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Metodologia Histórica Moderna vs. Metodologia dos Hadiths (parte 4 de 5): A Classificação de Hadiths I
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Descrição:
As várias categorias de hadith baseadas na força da cadeia de narradores.
Por Reem Azzam
Publicado em 19 Sep 2011 - Última modificação em 19 Sep 2011
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> O Profeta Muhammad
> Sobre Seus Ditos
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As pessoas envolvidas na transmissão de
um hadith constituem seu isnad. O isnad nos informa sobre a
fonte do hadith e essa informação posteriormente se torna uma parte essencial
do hadith (Azami 31). Relata-se que Abdullah b. Al-Mubarak, um dos professors
de al-Bukhari, disse: “O isnad é parte da religião, porque se não fosse
pelo isnad, qualquer um teria dito o que quisesse” (Hasan 11)
Existe alguma indicação de que o isnad foi usado antes
da primeira tribulação, embora só tenha sido plenamente desenvolvido no fim do
primeiro século da Hégira (Azami 33). (Entretanto, John Burton em seu An Introduction to the Hadith (Uma Introdução aos Hadiths, em tradução
livre) diz que o isnad ainda não existia no primeiro século). A outra
parte do hadith que contém o dito ou ação específicos do profeta, que a
misericórdia e bênçãos de Deus estejam sobre ele, é seu matn ou texto.
Na classificação de hadiths existem
várias categorias amplas, das quais somente sete serão brevemente discutidas
aqui. As sete categorias são classificações de acordo com: 1) a referência a
uma autoridade particular; 2) os elos no isnad; 3) o número de relatores
envolvidos em cada etapa do isnad; 4) a técnica usada no relato do
hadith; 5) a natureza do isnad e matn; 6) um defeito oculto
encontrado no isnad ou matn do hadith; e 7) a confiabilidade e
memória dos relatores (Hasan 14-16).
A primeira categoria, a classificação
de acordo com a referência a uma autoridade particular, pertence a se ela vai
até o profeta, um Companheiro ou um Sucessor. Uma narração marfu ou
“elevada” é a que vai até o profeta e é considerada como o melhor nível (Burton
112). Uma narração mawquf ou “interrompida” é a que vai até um
Companheiro, enquanto que uma narração maqtu ou “dividida” vai até um
Sucessor. Essa classificação é significativa porque
diferencia entre os ditos e ações do profeta e as de um Companheiro ou
Sucessor.
A segunda categoria, classificação de
acordo com os elos no isnad, faz várias distinções. O hadith musnad
ou “apoiado” é o melhor do grupo já que não contém interrupção na cadeia de
autoridades que relatam o hadith até o profeta (Burton 111). O hadith mursal
ou “desvinculado” é o que contém uma lacuna de uma geração (de acordo tanto com
Azami quanto com Hasan, é um hadith relatado por um Sucessor que pula no isnad
o Companheiro de quem ele aprendeu). O hadith munqati
ou “quebrado” é aquele em que falta um elo mais próximo ao tradicionalista que
o relata (ou seja, antes do Sucessor). Isso se aplica
mesmo que não pareça existir interrupção na cadeia, mas seja sabido que um dos
relatores não poderia ter ouvido o hadith da autoridade imediata dada no isnad,
mesmo que sejam contemporâneos. O termo munqati
também é usado por alguns sábios para se referir a um hadith no qual um relator
não informa sua autoridade e ao invés disso diz “um homem narrou para mim”
(Hasan 22). Um hadith é mudal ou “confuso” se mais de um relator
consecutivo estiver faltando no isnad. Se o
isnad é completamente ignorado e o relator cita diretamente do profeta, o
hadith é considerado muallaq ou “suspenso” (Hasan 22).
Dentro da terceira categoria os hadiths
são classificados de acordo com o número de relatores em cada etapa do isnad,
ou seja, em cada geração de relatores. As duas principais classificações são mutawatir
(“consecutivo”) e ahad (“único”), embora o ahad seja ainda
dividido em muitas subdivisões, entre elas gharib (“escasso” ou
“estranho”), ‘aziz (“raro” ou “forte”) e mash’hur (“famoso”). Um
hadith mutawatir é aquele que é relatado por um grande número de pessoas
fazendo com que um acordo sobre uma mentira não seja razoavelmente possível e
no qual a possibilidade de coincidência é desprezível. O número mínimo exigido
de relatores difere entre os sábios de hadith e varia de quatro a várias
centenas (Azami 43). O hadith pode ser mutawatir no significado ou
palavras, sendo o primeiro caso o tipo mais comum. Al-Ghazali
estipulou que o hadith deve ser mutawatir nos estágios inicial,
intermediário e final de seu isnad (Hasan 30). Um hadith ahad é
aquele cujo número de relatores não chega perto do exigido de um hadith mutawatir.
Um hadith é classificado como gharib se em qualquer
estágio (ou todos os estágios) no isnad existe somente uma pessoa
relatando-o. Um hadith é
classificado como aziz se em cada estágio no isnad existem pelo
menos duas pessoas relatando-o. Se pelo menos três pessoas relatarem um hadith em cada estágio de
seu isnad, então ele é classificado como mash’hur, embora o termo também
seja aplicado aos hadiths que iniciam como gharib ou aziz, mas
terminam com um grande número de relatores (Hasan 32).
Na quarta categoria os hadiths são
classificados de acordo com a forma na qual são relatados. Como mencionado
anteriormente, existe um termo especial correspondente para denotar um modo
particular de aprendizado ou transmissão quando um aluno ou sábio aprendem um
hadith. Os termos “haddathana,” “akhbarana” e “sami’tu”
indicam que o relator pessoalmente ouviu o hadith de seu próprio sheikh. “An”
e “qaala” são mais vagos e podem significar ouvir do sheikh em pessoa ou
através de alguém. Na verdade, “an” é muito inferior e pode significar
aprender o hadith através de qualquer um dos vários modos de transmissão (Azami
22). Um hadith pode ser rotulado como fraco devido à incerteza causada pelo uso
dos dois últimos termos, que se traduzem respectivamente como “sobre a
autoridade de” e “ele disse” (Hasan 33). Quem pratica “tadlis” ou
ocultação, relata de seu sheikh o que não ouviu dele ou relata de um
contemporâneo com o qual nunca se encontrou. Isso
viola o princípio de que um hadith deve ser ouvido em primeira mão para ser
transmitido (Burton 112). Outro tipo de tadlis, que é considerado o pior
entre eles, é quando um sábio confiável relata de uma autoridade fraca que por
sua vez está relatando de um sábio confiável. A pessoa
que está relatando esse isnad pode mostrar que ele ouviu de seu sheikh,
mas então omite a autoridade fraca e simplesmente usa o termo “an” para
vincular seu sheikh com o próximo confiável no isnad (Hasan 34).
Se ao longo do isnad todos os
relatores (incluindo o profeta) usam o mesmo modo de transmissão, repetem uma
afirmação ou observação adicional ou agem de uma forma particular enquanto
narram o hadith, então ele é chamado musalsal (“uniformemente
vinculado”). Esse tipo de conhecimento é útil para descontar a possibilidade
de tadlis em um hadith particular (Hasan 35).
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Metodologia Histórica Moderna vs. Metodologia dos Hadiths (parte 5 de 5): A Classificação de Hadiths II
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Descrição:
As várias categorias de hadith baseadas na força da cadeia de narradores. Parte 2.
Por Reem Azzam
Publicado em 19 Sep 2011 - Última modificação em 19 Sep 2011
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> O Profeta Muhammad
> Sobre Seus Ditos
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De acordo com a quinta categoria, um
hadith só pode ser classificado com respeito à natureza de seu texto e isnad.
De acordo com Al-Shafi, se um hadith relatado por uma pessoa confiável vai
contra a narração de alguém mais confiável que ele, então o hadith é shadh
ou “irregular”. De acordo com Ibn Hajar, se uma narração por um relator fraco
contradiz um hadith autêntico, então aquele hadith é classificado como munkar
(“denunciado”), embora alguns sábios o classifiquem qualquer hadith de um
relator fraco como munkar. Um hadith também pode ser classificado como munkar
se seu texto contradiz ditos gerais do profeta. Se um hadith relatado por uma
pessoa confiável contém alguma informação adicional não narrada por outras
fontes autênticas, a adição é aceita desde que não as contradiga e a adição é
conhecida como ziyadatu thiqah (“uma adição por alguém confiável”). Entretanto,
se um relator acrescenta algo a um hadith sendo narrado, então o hadith é
classificado como mudraj ou “interpolado”. Se isso ocorre em um hadith
geralmente é em seu texto e, com frequência, com o propósito de explicar uma
palavra difícil. Em uns poucos exemplos isso ocorre no isnad - um
relator toma uma parte de um isnad e a acrescenta a outro isnad.
Um relator pego no hábito de idraj ou interpolação intencional
geralmente é considerado um mentiroso, embora sábios sejam mais lenientes com
aqueles relatores que podem ter feito isso para explicar uma palavra difícil
(Hasan 37-39).
Na sexta categoria hadiths que contêm
defeitos ocultos em seu isnad ou texto são classificados como ma’lul
ou mu’allal (“defeituosos”). Isso pode acontecer devido a classificar
um hadith como musnad quando ele é de fato mursal ou atribuir um
hadith a um Companheiro particular quando na verdade vem de outro. Para
detectar esses defeitos todos os isnads de um hadith têm que ser
coletados e examinados. Por exemplo:
“Alguns sábios escreveram trabalhos nos
quais os Sucessores ouviram hadiths de determinados Companheiros. Dessa
informação é sabido que Al-Hasan Al-Basri não encontrou Ali, embora exista uma
ligeira chance de que possa tê-lo visto durante sua infância em Medina. Isso é significativo, uma vez que se diz que muitas tradições sufis voltam para
Al-Hasan Al-Basri, que se diz ter relatado diretamente de Ali.” (Hasan 42-43)
Também pode haver incerteza sobre o
isnad ou texto, em cujo caso o hadith é classificado como mudtarib
(“duvidoso”) Isso ocorre se os relatores discordarem sobre alguns pontos no isnad
ou texto, de forma que não prevaleça nenhuma opinião. Um hadith pode ser
classificado como maqlub (“alterado” ou “invertido”) se no isnad
um nome foi invertido (ou seja, Ka’b b. Murra versus Murra b. Ka’b) ou se a
ordem de uma frase no texto estiver invertida (Azami 66). Isso também se aplica
aos hadiths cujo texto recebeu um isnad diferente ou vice-versa, ou
aqueles nos quais um nome de relator foi substituído por outro (Hasan 41-42).
A sétima e última categoria a ser
discutida aqui é a classificação de acordo com a qualidade dos relatores, da
qual o veredicto final sobre um hadith depende de forma crítica. Hadiths relatados
por aqueles conhecidos como sendo adil, hafiz, thabit e thiqa
são os de classificação mais alta e são classificados como sahih ou
“sólido”. Para alguém ser considerado adil é necessário ter sido um
muçulmano muito devoto, honesto e confiável em todos os seus procedimentos. Através
de comparação cuidadosa, o acordo verbal encontrado no texto de um hadith ente
vários transmissores indicou quem era o mais preciso (thabit), o mais
confiável (thiqa) e quem tinha a melhor memória (hafiz). Se
qualquer sábio se encaixar em menos que esse ideal em uma ou mais categorias,
mas não é criticado, então os hadiths relatados por ele são considerados menos
que sólido ou hasan (“justo”). Se um relator for conhecido por ter uma
memória fraca ou cometer erros devido à negligência, então seus hadiths são
considerados daif (“fraco”) (Burton 110-111).
Claro, existem outros fatores que atuam
no veredicto final sobre um hadith e, nas palavras de Ibn Al-Salah, “um hadith sahih
é o que tem um isnad contínuo, composto de relatores de memória confiável de
autoridades semelhantes e que é livre de quaisquer irregularidades (ou seja, no
texto) ou defeitos (ou seja, no isnad).” De acordo com Al-Tirmidhi um
hadith hasan é “um hadith que não é shadhdh, nem contém um relator
disparatado em seu isnad e que é relatado através de mais de uma rota de
narração” (Hasan 44-46). Um hadith que não alcança os requisitos para um hadith
hasan é classificado como daif e geralmente devido à
descontinuidade no isnad. Também pode ser
classificado como daif se um dos relatores não tiver uma boa reputação
por qualquer razão, seja por cometer muitos erros ou ser desonesto. Se os defeitos forem muitos e graves, o hadith está mais próximo de
ser classificado como mawdu ou fabricado. De
acordo com Al-Dhahabi o hadith mawdu é aquele cujo texto contraria
normas estabelecidas dos ditos do profeta e cujo isnad contém um
mentiroso. Um hadith também pode ser estabelecido como
mawdu devido à “evidência externa relacionada à discrepância encontrada
nas datas ou períodos de um incidente particular” (Hasan 49).
Em conclusão, as classificações
mencionadas constituem somente uma fração do número total de classificações
existentes. Os estudos em hadith são muito complexos e parece que os sábios
pensaram em todos os ângulos imagináveis para analisar um hadith. Tudo isso
com o propósito de distinguir entre tipos diferentes de narrações,
especialmente para distinguir o autêntico do não autêntico.
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