|
Eu notei quase que imediatamente que os
ensinamentos corânicos são muito abrangentes, completos, equilibrados e
práticos. Em nome da brevidade eu não entrarei em detalhes nesse aspecto, mas
foi algo que me impressionou bastante. A amplitude e flexibilidade das leis do
Alcorão são impressionantes. Estava claro para mim que esse livro não foi
revelado apenas para um povo em uma época específica, mas que era para todos os
povos em diferentes épocas e lugares.
O Alcorão é muito abrangente naquilo
que aborda e dá orientação clara com referência a assuntos diversos como atos
rituais de adoração, transações comerciais, casamento, divórcio, as leis da
guerra e assim por diante. Existe um equilíbrio definitivo que se sente ao ler
o Alcorão. As necessidades espirituais e mundanas dos homens são atendidas
simultaneamente na mesma passagem. Mesmo as passagens mais detalhadas
referentes à lei contêm advertência, lembrança de Allah e exortação ao melhor
comportamento possível.
O escopo dos ensinamentos corânicos não
é para o próprio indivíduo. Não é o caso de Allah ter dado algum tipo de
orientação espiritual para, talvez, apenas guiar a sua moral e caráter. Ao
invés disso, Allah também revelou uma lei que é voltada para a sociedade como
um todo. Os humanos não têm que fazer tentativas para decidir o que é melhor
para toda a comunidade. Isso foi dado por Allah para guiar a humanidade para o
melhor modo de vida.
Cobre a prática e piedade pessoal do
indivíduo e seu relacionamento com seus pais, cônjuge, filhos, vizinhos,
comunidade e humanidade como um todo. Tudo isso com um equilíbrio adequado e
dentro de uma estrutura geral para fazer da vida uma forma verdadeira e
completa de adoração somente a Deus. Existe claramente apenas um único objetivo
para os humanos – adorar a Deus – e todos os atos dessa vida terrena estão
dentro do escopo desse objetivo. Não existe esquizofrenia na vida de uma
pessoa. Ela não está tentando agradar a Deus e a César ao mesmo tempo ou mesmo
em momentos diferentes. Ela nem precisa recorrer à perseguição de desejos vãos
e comprometer a sua ética para viver uma vida gratificante nesse mundo. Ela
precisa simplesmente viver sua vida nesse mundo de uma maneira geral sob a
sombra da orientação abrangente do Alcorão.
Um Aspecto Particular da Lei Islâmica: Sua
Praticalidade
A praticalidade da Lei Islâmica é um
aspecto particular que verdadeiramente me impressionou naquela época, por conta
de meu antecedente cristão. É uma grande bênção que no Islã se encontre
ensinamentos detalhados que resultam em objetivos desejados enquanto que, ao
mesmo tempo, são extremamente práticos e consistentes com a natureza humana. A
falta desses ensinamentos é um dos maiores dilemas enfrentados pelo
Cristianismo. Por exemplo, com respeito à coesão e interação social, os maiores
ensinamentos encontrados no Novo Testamento são os conhecidos como os “ditos
difíceis” de Jesus. São eles:
“Ouvistes que foi dito: Olho por
olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se
qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra; E, ao que quiser
pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; E, se qualquer
te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas. Dá a quem te pedir, e não te
desvies daquele que quiser que lhe emprestes. Ouvistes que foi dito: Amarás o
teu próximo, e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos
inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai
pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai
que está nos céus; Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a
chuva desça sobre justos e injustos. Pois, se amardes os que vos amam, que
galardão tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes unicamente os vossos
irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos também assim? Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o
vosso Pai que está nos céus.” (Mateus 5:38-48)
Os próprios eruditos cristãos ficam
perplexos. Como esses ensinamentos obviamente impossíveis ou impraticáveis
podem ser aplicados? Apenas um exemplo de uma discussão dessas palavras será
suficiente para mostrar o quão confusos eles são para aqueles que acreditam
firmemente neles:
[Para interpretar essas palavras, o modelo
proposto por Joaquim Jeremias é simples, representativo e de influência
contínua. De acordo com esse modelo, o Sermão usualmente é visto em uma das
três formas: (1) como um código perfeccionista, totalmente em acordo com o
legalismo do Judaísmo rabínico; (2) como um ideal impossível, para direcionar o
crente primeiro ao desespero e depois a confiar na misericórdia de Deus; ou (3)
como uma ‘ética provisória’ idealizada para o que se esperava que fosse um
breve período de espera do fim dos tempos, que agora é obsoleta. Jeremias
acrescenta sua própria quarta tese: o Sermão é uma descrição indicativa da vida
insipiente no reino de Deus, que pressupõe como sua condição de possibilidade a
experiência da conversão. Esquemas mais complexos ou abrangentes foram
oferecidos, mas a maioria dos intérpretes importantes podem ser entendidos em
relação às opções apresentadas por Jeremias.
No Islã, não existem esses dilemas. Os
ensinamentos são fáceis, flexíveis, práticos e completamente adequados à vida
diária, mesmo para um muçulmano recém-convertido em um ambiente completamente
não-islâmico, como eu era. O famoso autor James A. Michener também mencionou e
apreciou esse aspecto do Islã. Em um de seus primeiros escritos que eu li sobre
o Islã, intitulado “Islam—the Misunderstood Religion,” (Islã - A Religião
Mal-Compreendida, em tradução livre) Michener escreve:
O Alcorão é notavelmente prático em sua
discussão da vida boa. Em uma passagem memorável ele orienta: “Quando lidarem
em transações envolvendo obrigações futuras, coloquem-nas por escrito...e
consigam duas testemunhas...’ É essa combinação de dedicação a um Deus, mais a
instrução prática, que faz do Alcorão único.
|